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18.8.10

Meu nome não é Tobey


















Introdução
Minha gente, vocês não tem noção não. Tipo, há muito, muito tempo atrás, uma pessoa olhou pra mim e disse: "rapaz, você parece o Tobey Maguire, aquele rapaz que fez o spider man. Mas, menino, é ele todinho"
Tudo que eu pude dizer foi HAHAHA, né? Pois bem, algum tempo se passou e esta criatura continuou a me chamar de spider pra cá, spider pra lá e todo mundo que estava junto foi concordando e entrando nessa grande situação que nós vamos chamar aqui de: absurda.
Hoje em dia, não encontro mais com este ser com frequência, mas coincidentemente ou não, outras pessoas, alocadas em outros ramos da minha vida também fizeram o mesmo comentário sem precisar de nenhuma referência precedente, beleza?

Desenvolvimento
Pois bem, amiguinhos, eis que anteontem, estou eu indo em direção à padaria localizada nas imediações do meu trabalho e cruzo com três ou quatro meninos de rua que nós vamos chamar aqui, preconceituosamente, de: trombadinhas.
Eu, do jeito que sou desconfiado com deuseomundo, acho logo que eles vão me atacar a qualquer momento e qual não foi minha surpresa quando um deles se levantou da calçada, apontou na minha cara de disse: PETER PARKER!

Ele: - Tu é Peter Parker, né, vey? O homi aranha, doido, é ele, môbrother!
Eu, morrendo: - Não.
Ele: É SIM, VEY! EU SEI QUE É VOCÊ, DOIDO, É EEEEEEELE!

Nessa parte eu ignoro solenemente e entro na padaria.
Aquisições realizadas e bucho cheio, volto pelo mesmo caminho e o juvena continua.

Ele: - É tu num é, que fez o filme? É sim, é ele mermo, minim.
Eu: - Sou não, menino. Olha, toma aqui um bem-casado e vai-te embora, vai!

Peraê, minha gente, eu também não sou o retorno de Lucifer no planeta Terra não. Claro que eu tava falando tudo isso, mas rindo ao mesmo tempo.
Só sei que segui meu caminho escutando a voz do pirralho se afastar com a certeza absoluta que eu era o Peter Parker e pior, não era um cover nordestino não, eu era o-próprio, viu?
Hoje, dois dias depois, estou eu voltando para casa e encontro o infante na parada de ônibus. Logo o reconheço e recuo para que ele não me veja. Aí, tô eu lá escutando meu Ipod nas alturas e escuto gritos ao longe. Olho para a alminha sebosa e lá está ele, mais uma vez, apontando pra mim e falando alguma coisa que eu só entendia o final que era "não foi?" e eu, na minha doce inocência, achando que ele tava perguntando se era eu que tinha dado um bem-casado pra ele dois dias atrás, respondo sem hesitar: "foi". Dito isto, tiro um dos fones do ouvido e escuto a criança gritar:

- EU SABIA, EU SABIA! FOI TU, NUM FOI? QUE FEZ O FILME? TU É PETER PAAAAAARKER, MERMÃO!

Gente, eu juro pela hóstia consagrada que tentei mostrar a realidade mundial pra criaturinha, mas não tinha jeito. Quanto mais eu dizia que não, mais ele dizia que eu era peter parker todinho e a situação foi ficando tão hiberbolizada que as mulé da parada começaram a olhar pra mim, todas com risinho de rapariga na cara e balançando a cabeça afirmativamente concordando com tudo. Ainda tentei entrar na brincadeira, ofereci um autógrafo pra ele que disse "QUÉ-ÉRO" com brilho nos olhos. Neste ponto eu já me encontrava tão em fase terminal, no leito de morte da vergonha, que peguei o primeiro ônibus que passou HAHAHA eu sou ótimINFAME, né?

Conclusão
Mas a história não acaba por aí não, caros leitores. Se você, assim como eu, achava que, ao entrar no ônibus, tudo voltaria a ser como antes, ledo engano.
Achando pouco, a criaturinha, que poderíamos perfeitamente chamar de doende verde, aumentou o volume do grito e saiu passando por todas - eu disse: todas - as janelas, pra que todos ali inseridos ficassem cientes que Peter Parker adentrava naquele transporte coletivo.
Olha, os fãs do homem aranha que me perdoem, mas alguém aí tem dúvidas que o homem invisível, naquele momento, viria muito mais a calhar?
ps: só a título de esclarecimento, este piercing não existe há anos, ou seja, a foto é antiga.
ps²: não sou estrábico. Tobey tá olhando pra vocês e eu: não. rs.

11.8.10

Como andar na rua fingindo que é foda (mesmo que você seja/esteja um cu cagado)

Você vai precisar de:
- Ipod (contendo lady gaga ou banda lapada)
- Carão
- Determinação

Para acrescentar a gosto:
- Uma brisa que vem do leste
- Óculos escuros - faça chuva ou faça sol (lua não está incluída)

Primeiro, não ande, desfile. Ou ao menos tente.
Ande rápido porque você não veio a esse mundo a passeio, né, beiber? Ande determinado, com passos firmes, mas leves. Não ande arrastando os pés porque é feio, é deselegante e apesar de você ter a sensação de estar caminhando para a morte sempre, tente abstrair esse pensamento e ande feito gente.
Se você tiver pi piu, não rebole. Se você tiver pitoca, NÃO rebole.
Determine seu destino e trace uma percurso retilíneo. Não importa onde você está, pode ser ao meio dia, no centro da cidade ou às duas da manhã na balada lotada. Faça com que as pessoas desviem de você e se elas não desviarem, faça com que elas sofram as consequências: esbarre nelas.
Lembrem-se: nunca, jamais, tempo algum, olhe nos olhos de alguém. Finja que tá, sei lá, no Irã onde isso deve ser pecado mortal. Fixe um ponto no horizonte e vá. Você pode olhar pro corpo das pessoas indiscretamente, caso seja necessário, mas isso não vai ser validado porque, oi, você nem olhou nos olhos dela. Caso aconteça, por alguma eventualidade, do seu olhar esbarrar no de alguém, não se desespere. Primeiro, não olhe para baixo, segundo não desvie o olhar vulgarmente porque aí, movéi, foi tudo por água abaixo.
Para se sair de uma situação complicada como esta aconselho piscar os olhos e ao abri-los, tcharam, você já estará olhando para o lado, como se nada tivesse acontecido. Se você, cheio de fogo na bacurinha, está pensando "meu deus como vou paquerar alguém sem olhar nos olhos?" hehe. Aí é que está, selecione seu olhar para quem, de fato, o mereça. Claro que isso pode afastar possíveis interessados, mas pode ter certeza que quem chegar em tu, meu brother, vai chegar dicumforça na determinação.
Ao encontrar conhecidos na rua, ignore-os solenemente. Brinks, depende do conhecido, claro. Se for andando, fale, se for no carro, acene, se for no ônibus, ignore. O Ipod aqui serve como desculpa porque você nunca consegue escutar as pessoas com os fones no ouvido, obviamente.
Agora se você está pensando "até parece que esse tobozudo faz isso na real life", repense, viu? Porque eu juro pela hóstia consagrada que faço e, pior, faço com a maior naturalidade do mundo, esbanjando ridicularidade.
Lembra quando você escrevia no caderno do coleguinha da escola "siga sempre sorrindo sem se sentir sozinho"?
Pois bem, é chegada a hora.

26.6.10

Por que eu nunca falei de moda aqui?

Então, lindos leitores, é chegada a hora. Eu sei que esse post tá totalmente defasado e que o SPFW é jornal de ontem, e que já estamos na semana de moda de Paris, mas e daí, quero comentar e priu. Suportem.

Acho válido dizer que eu não estudo moda, não trabalho com isso e, resumindo, não sei nada sobre isso. Eu sei o que agrada meus olhos e acho que isso é mais do que suficiente. Então, seguem abaixo minhas impressões do que foi desfilado no SPFW, o que eu realmente achei bonito e usaria na moral na real life. Vem comigNOT.
ADOREI:

Os sapatos dourados do alê (meu best).























e esse verde ou azul-piscina da cavaleira. Eu lembro que quando eu era "criança" as pessoas me perguntavam qual era minha cor favorita e eu dizia "verde-piscina com roxo".
























Vocês vão me desculpar, mas eu preciso confessar que amei essa calça da colcci, minha gente. SÓ A CALÇA. Se eu tô dizendo que gostei disso ou daquilo, é só aquilo mesmo, viu? Abstraiam o resto do look, por gentileza.























E amei MUITO MAIS o short :~























Não me perguntem o porquê porque eu também não sei o que me fez gostar desse look do Mário Queiroz. Acho que foi essa paleta de cores insossa, essa calça de cintura reta e esse cinto ressaltanbdo isso. Gostei e priu.























Agora vamo parar de enrolação e falar do que é bom mesmo: beleza em abundância. Me desculpem o chichêzismo, mas só encontrei isso no desfile da Ellus. Foi o único momento que me vi pensando que sairia exatamente assim no meio da rua, sem tirar nem por.
Vamos as imagens, bem mais esclarecedoras:















































(aqui eu fecharia essa camisa porque não tem pra quê tanto piriguestimo)























ELLUS, ME ABRACE FORTE!
Gostei de tudo. Mesmo. Do cabelo, dos óculos, do frescor das cores, bolsas, sapatos, cintos e, mais uma vez, shorts. Eu adoro essa história dos shorts perdurarem há umas, sei lá, seis temporadas, no mínimo, porque é tão ótimo, né, gente? É tão Brasil, tão belo e confortável. Eu simplesmente não consigo mais sair com nada abaixo dos meus joelhos a não ser que seja uma calça, oi?
Agora, pelamor de Benji, viu? Vamo ter parcimônia nessa vida e ir devagar com o andor. Não é só porque é bonito que você pode sair com seu shortinho beira cu por aí jurando que tá abalando com a cara da sociedade não. Seguem algumas reflexões no intuito auto-ajuda:

como são suas pernas? Não precisa ter uma perna grossa e bem torneada pra usar short não, minha gente, mas também vamo brincar de ter o mínimo de senso estético, né? Se você não consegue visualizar isso, volte e reveja as imagens acima. Note que nenhuma das pernas é putaquepariu que perna é essa, mas enfim, são pernas dignas, ajeitadinhas, podem e merecem ser expostas.

Outra coisa importantíssima: como são os pêlos da sua perna? Porque, falando sério, não é todo mundo que nasce com o dom de ter pêlos lisos, macios e sedosos não, viu, beiber? E ao contrário do que você pensa, o cabelo de cima não tem nada a ver com o cabelo de baixo (oe). Há uma gama de fatores que podem e devem ser analisados antes de você sair por aí fazendo o dançarino do é o tchan. O mais comum são os pêlos nascerem para todos os lados, de maneira desorganizada. Nesse caso o que vocês fazem? Aparam, né, minha gente? Me poupem. Comprem um barbeador elétrico só pra isso, é barato e o resultado é garantido. Vá por mim que é muito melhor do que sair por aí fazendo a monga.

Agora, se os pêlos da sua perna forem iguais aos seus pentelhos, movéi, desista. Use calça pra sempre. Pra ficar mais explícitado, a imagem abaixo mostra uma perna que não deve ser jamais vista a olho nu e que merece, no mínimo, ter seus pêlos aparados.
























Se você não notou a diferença entre esta perna e aquelas ali de cima, POR QUE VOCÊ ESTÁ LENDO ESTE POST?
Outra coisa importante sobre shorts: cumprimento. Veja abaixo como não deixar as pernas amostra - mesmo que elas sejam ungidas em cristo -























Pronto, agora vamos falar de coisa ruim. Odiei o desfile da Amapô. E não é porque não é usável, é porque é FEIO mesmo. Ronaldo Fraga tá aí fazendo conceito e é puro amor. O João Pimenta também é outro lindo e não usável. Mas, isso, minha gente, isso é macumbaria pura (amarrado 3x)! Aprenda como sair de casa parecendo um boneco de vudu:
























Aproveitando a deixa, quero deixar registrado meu inconformismo com essa tendência de calças largas. Tivemos modelos desse tipo desfilados na própria Amapô, em Alexandre e até mesmo na Ellus. Beleza, não vamos viver de skinny pra sempre, mas também não precisa usar uma calça que te deixa parecendo um saco de batatas. Sei lá, roupa tem que valorizar a gente, né? E outra, adoro essa tendencinha de dobrar a barra da calça, mas com bocas largas, pra mim, não funciona.
Outra coisa uó dessa temporada foi a quantidade absurda de transparência. Eu abomino transparências at all. Seja pra mulheres ou para homens. Na verdade a linha entre o delicado, bonito, exótico e vulgar é tênue demais então, prefiro abominar. Principalmente para homens. Vide Reinaldo Gianecchini pela Colcci ali em cima e esse look o cão do cão, mais uma vez da Amapô que segue abaixo:























Para não dizer que não falei das flowers, separei três looks que mais me chamaram atenção. Imagens auto-explicativas:

Tufi Duek























Osklen























Adriana Degreas























Gostaria de finalizar este singelo post com uma frase de um grande filósofo e pensador do século XXI: eu.
Cada um saber a dor e o corpo que tem, por isso, não me venha querer fazer o trendsetter e sair por aí achando que tá fechando de badoque.
Um beijo e até o outono/inverno 2011.
Ou não.

22.3.10

Décimo segundo

Ontem, dia 21 de Março, fez um ano que minha terapeuta sofreu um acidente quase fatal.
Hoje, um ano e um dia depois, voltamos às sessões.
Engraçado o quanto mudamos nesse tempo e mais engraçado ainda eu falar na primeira pessoa do plural.
É que a gente nem para pra pensar, mas pelo menos pra mim, falar do meu último ano em quarenta e cinco minutos foi como vomitar loucamente e depois sentir aquela sensação de alívio. Não que eu goste de vomitar, mas eu sinto isso, me deixem.
Nesses quarenta e cinco minutos eu falei que me formei, que tirei dez no meu projeto de conclusão de curso e entreguei uma cópia do filme pra ela. Contei do meu trabalho sacal que se torna maravilhoso pelas pessoas que me rodeiam por lá, contei que viajei, contei que me apaixonei, que sofri, que quase morri. Contei que me apaixonei por mim.
Falei também que tô bebendo mais do que antes, gastando mais do que antes e, principalmente, respeitando as minhas vontades mais do que antes. Tô aceitando as pessoas, seus ciúmes, crises e sadismos porque, ora, são pessoas. Eu só não aceito orgulho porque ela me ensinou que orgulho quando é demais deixa de ser orgulho e passa a ser burrice. E como eu também sou humano, fiz questão de deixar de fora casos e criaturas que não merecem qualquer citação.
Não precisei falar que estava dez quilos mais gordo ou mais forte, como queiram. Ela percebeu e perguntou se eu tinha noção que eu estava mais bonito. Linda.
Que saudade da vista daquela janela.

7.12.09

Rua dos Bobos, número 0.

A idéia era construir um arranha-céus. Além da fachada, o interior também tinha que ser bem lindo.
Tijolo por tijolo, anos depois, você viu a obra concluída, mas sempre sentiu falta de algo, sabe? Algo a mais.
Mas, olha, não é que esteja faltando algo de fato. É que você simplesmente construiu a coisa errada e aí, meu amigo, das duas uma: ou você se contenta com o que tem ou você desconstrói tudo pra depois tentar reconstruir. E no meio disso, querendo ou não,
tudo que você terá é um terreno baldio.

22.2.09

Entre confetes e serpentinas

Carnaval aqui em Recife é que nem desastre ambiental. Caso você não saia da cidade, não tem como escapar. E nessa história de Carnaval Multicultural acaba tendo de tudo. Mesmo. E pra todos.
Mas pra não generalizar demais, eu queria mesmo falar das troças, agremiações e blocos de rua.

Desde Janeiro acontecem as prévias do carnaval. Que, de prévias, só tem o nome. Porque a galera se joga dicumforça como se não houvesse quarta-feira de cinzas.
Aí, dentro desta pequena ramificação também tem pra todos. Primeiro que cada profissão tem seu bloco específico. "Imprensa Que Entra" para os jornalistas, "Segura o Briefing" para os publicitários, "Coveiros em Folia" para os... coveiros. Bizarro? Não, carvanal do Recife. Detalhe que a concentração dos coveiros é num cemitério, ok?

Fora do âmbito "profissões" temos mais trocêntos milhões de outros blocos de nomes não menos peculiares como: "Arrasta Corno", "Ressaca do Karai", " O Urso Paisagista" (oi?), "Tô Chegando Agora", "Eu Acho é Pouco", "O Bagaço é Meu", "Acorda Pra Tomar Gagau", "Não Acredito que Te Beijei" e "Tô Comendo Nada".

Ainda no clima de segmentação, os blocos que não tem um público alvo definido como "PM's do 14º Batalhão em Folia", aos poucos vão ganhando forma e um público cativo específico. Ou seja: são rotulados. Então, tem os blocos que "só dá piniqueira", "só dá gente cabeça", "só dá maconheiros", "só dá MESC (Movimento Eu Sou Cultural), "só dá mundiça" e a mais nova tendência do carnaval 2009, "só dá gente bonita".

Serião, antes mesmo do carnaval começar eu fui chamado pra uns três blocos que continham esta qualidade "impressa" no convite.
Agora eu só quero saber uma coisa: da onde é que sai tanta gente bonita? E onde é que esse povo se esconde o ano todo? Porque, pela hóstia consagrada, minha gente, eu juro que passo o ano todinho procurando e não acho.

Por via das dúvidas, todos os convites foram negados. Pelo simples fato de eu ter estudado marketing um dia e odiar propagandas enganosas.

28.12.08

Quando seu método de escape não funciona mais

Era uma vez um menino que sonhava muito.
Ele sonhava tanto, mas tanto
que o seu maior sonho
era não sonhar.

25.11.08

A visita da Realidade


"Procuro o fio,
só há meada."
Caio


Não tem o que querer. É assim e pronto. Tem que ter. É do ser humano, é comum, é natural. E não adianta fazer essa cara de vômito porque você, meu filho, não é diferente de ninguém. De seu ninguém.
Então, pra quê tentar apagar suas pegadas se você, justo você, sabe muito bem por onde andou? Dependendo da sua pré-tensão, seu livro, seu caderninho, seu diário está ali, há meses.
Parado, sem uma linhazinha sequer pra contar história. Pra continuar a sua história que quer queira, quer não, existe.
Você já se deu o trabalho de se ler? Sério, pare e releia-se. Olha só a dedicação, o cuidado nas suas primeiras linhas. Caligrafia perfeita, ausência de erros gramaticais, tudo muito simétrico, tudo bom demais pra ser verdade.
Basta virar algumas páginas para que os erros apareçam. A princípio, podem até passar despercebidos, podemos até fingir que foi distração. Mas depois, amigo, ah, depois não adianta mais. As rasuras tornam-se constantes e você, se achando muito é do esperto, dá continuidade ao que já tinha se encerrado por si só. Porque às vezes, vou te re-lembrar, às vezes as histórias ganham autonomia. Independência, sabe? Às vezes as histórias desistem de você. Não adianta passar a borracha, não adianta pular páginas, deixar espaços em branco, fingir um recomeço. Não adianta.
Pelo que eu vejo aqui, você fez de um tudo para não se perder no próprio enredo. Intercalou capítulos desconexos, voltou atrás, persistiu, inovou e tentou. Tentou muito, eu sei. Dá pra ver o seu esforço nos últimos capítulos miúdos, fracos, sem consistência suficiente para se sobressaírem.
Esse menino, anota aí: não se transforma contos em romances.
E uma história só termina com um ponto final.
É por isso que eu vim aqui hoje. Pra te dizer mais uma vez tudo que você já sabia e te alertar de um detalhe que talvez você nunca tenha reparado.
As reticências que você utiliza todas as vezes na intenção de finalizar uma história, na verdade, significam apenas o silêncio. Significam omissão. As histórias não finalizadas, mais cedo ou mais tarde voltam à tona pra nos cobrar um final.
E convenhamos, antes um final triste do que uma história inacabada.

ilustração: eduardo recife

13.11.08

Cap. XXI

00:17, Segunda-Feira. Ela espera que as manchetes do último jornal do dia terminem pra não ir dormir se sentindo (totalmente) por fora do mundo. Ao final, desliga a TV e permanece sentada no sofá. Tenta se lembrar o que foi que acabou de ser anunciado como as "principais notícias do Brasil e do mundo", mas só lembra que eles vão fazer um balanço dos gols do final se semana. Ou seja, fez muito bem em desligar.
Ainda imóvel no sofá, espirra e lacrimeja. Tem gente que, ao invés de corizar pelo nariz, fica lacrimejando pelos olhos. Ela é uma prova viva.
Deixa as lágrimas tomarem conta da sua visão e fica ali, por um momento, vendo tudo disforme e embaçado. Pisca e levanta. Vai até a cozinha, abre a geladeira e dá mais uma olhada geral. Sabe muito bem que não deseja nada do que tem ali, mas nota que os pimentões acabaram. Vai até a dispensa e pega um pacote de biscoito. Passatempo recheado, o melhor. Coloca cinco num potinho de vidro e deseja que eles estivessem gelados. Pensa em colocar o pacote na geladeira para a próxima vez, mas como não sabe se vai querer biscoitos gelados ou naturais da próxima vez, não faz nada.
Comer biscoitos lhe incomoda um pouco. Em público, mais ainda. É que os biscoitos são muito grandes para serem colocados de uma só vez na boca. Claro que tem semi-cavalos por aí que conseguem, mas ela não. Morde o biscoito que se parte em trilhões de pedaços e farelos obrigando-a a fazer movimentos sincronizados com as mãos, cabeça e língua para que tudo não vá pro chão, ao invés de ir para a sua boca. Comer biscoitos é definitivamente patético em qualquer situação. Mas agora ela já terminou.
Enche um copo d'água fria. Nem gelada, nem natural. Toma num só gole e, realmente, não existe nenhuma bebida melhor do que água. Deveria existir alguma comida que fosse como a água é para as bebidas - ela pensa. Mataria a fome, mas não engordaria. Assim, inodora, incolor e insípida. Seria a glória.
Antes de sair da cozinha deixa um bilhete: "Dulce, lembra de comprar pimentões (dos verdes)! Bjo".
Vai ao banheiro para escovar os dentes. Faz mais ou menos uma semana que viu na TV uma nova escova de dentes que prometia acabar com a proliferação desordenada das bactérias por até noventa dias. Aí, mostravam numa animação, uma escova normal à esquerda, onde uma gosma verde, representando as bactérias, se reproduzia numa velocidade incrível e a escova milagrosa à direita que tinha umas gosminhas aqui e ali crescendo de maneira bem retardada.
Pronto, bastou isso para que nunca mais conseguisse escovar seus dentes em paz. Ficava imaginando aquela coisa grotesca se proliferando em sua boca como um vírus letal. Depois se imaginava banguela e por último, numa cama de hospital em fase terminal devido ao câncer de boca.
Pior que nem o listerine, que seria seu único consolo, iria lhe salvar dessa vez. Na última compra, decidiu arriscar num anti-séptico bucal mais barato, porque ô coisinha cara, viu?
Que erro. Já sabia, mas só fez reconstatar que há coisas na vida que valem o preço. O novo enxaguante tava mais pra Halls do verde em forma líquida. E ainda tinha a cara-de-pau de vir com as inscrições: "Refrescância por até 12 horas!" e "Testado clinicamente". Só sendo muita audácia mesmo.
Cospe aquele monte de espuma doce com nojo e uma certeza: agora sua boca está mais podre do que antes.
Volta à cozinha e bebe mais um copo d'água.
Entra no quarto e faz todo o seu ritual rotineiro. Desforra a cama, dobra a colcha, coloca em cima da cabeceira, certifica-se que nenhum raio do Sol entrará pela sua janela ao amanhecer (vidro com película, emborrachado preto, fita isolante e papéis colados de maneira tosca, porém providenciais). Fecha a cortina, pega os lençóis e os travesseiros no guarda-roupa. Troca de roupa. Apaga a luz, deixa os chinelos do lado direito da cama, deita-se, programa o despertador do celular para tocar às 6:45 sabendo que só se levantará às 7:10. Cobre-se deixando apenas os pés e a cabeça descobertos e joga os cabelos para cima.
Cabelos deveriam ser postiços - ela pensa. Assim, todo mundo poderia tirá-los na hora de dormir (sozinho, claro). Odeia seus cabelos na hora de dormir.
Respira fundo e alto, se abraça com um dos travesseiros, dorme e nunca mais acorda.

21.10.08

Sol na casa 4, Lua na casa 1 (ângulo tenso em relação ao sol)

O inferno astral taí, é fato. Meu horósco disse que nesta fase, minha consciência se volta mais para dentro, e eu percebo a importância de recolher-me, e até de analisar algumas questões passadas que, talvez, demandem um pouco mais de luz. Disse também que eu posso me perceber mais sensível do que o usual e com uma motivação exagerada para agradar os outros.

Mas é danado pra acertar, né, gente?
Por que eu faço cara de abuso, finjo demência, faço o mudinho, recuso convites, sou não-correspondido, levo mil patadas e bad vibrations à parte, ainda assim, venho me dedicando um bocado à quem é merecedor. E, confesso, nunca pensei que tivesse tanta gente. E que essa "motivação exagerada" fosse capaz de me fazer passar por cima da minha "maior sensibilidade" e agradar até quem não tem se comportado bem ultimamente. É, pareço metido, mas sou (bem) legal.
E se tem uma coisa que me deixa contente é receber de volta tanta atenção e mil afagos através palavras.

Ai, me deixa, tô sensível.

14.10.08

sobre não ter medo

Hoje eu tive uma aula diferente. Uma mostra de vídeos fora da faculdade.
O caminho era outro, mas nem por isso me era estranho. Foi aquele mesmo trajeto que nos faz relembrar os velhos tempos. Aquele trajeto de pontes, de lua cheia, de estrelas e luzes refletidas no rio.
E por puro capricho do acaso, peguei o ônibus errado, desci bem antes do pretendido e, consequentemente, tive que andar um pouco mais.
Andar raro, despreocupado, observando cada passo. Observando pessoas sentadas à beira do rio, olhando para o outro lado da margem, olhando para outros lados.

E tinha também uma brisa forte e gelada assanhando meus cabelos, mas eu tava nem aí.

7.10.08

fodeu.

sabe quando você não consegue parar de olhar pra uma pessoa enquanto ela estiver no seu campo de visão e você olha tanto mas tanto que diz já chega aí você descobre que não tem controle de si em relação a isso e continua a olhar só que quando você olha fixamente pra uma pessoa durante muito tempo ela sente o seu olhar e te olha de volta então ela vem falar com você e ao invés de olhar nos olhos você fica olhando pra boca e você fica se perguntando se aquela boca é boca ou se é um imã de outras bocas porque putaquepariuqueboca.

18.6.08

um dia frio

é que a janela do seu quarto está fechada há três dias e os ácaros se multiplicam rapidamente. o corpo já manda seus sinais de protestos e essa tosse seca e rouca só persiste. esse clima, deve ser; o cigarro, pode ser; os ácaros.
ontem resolveu que, por falta de opções, iria abraçar o frio. enquanto todos aproveitavam para tirar seus casacos dos armários e ousar nas sobreposições, ele optou apenas pela cor fria e por um guarda-chuva florido obviamente emprestado. esse é daqueles que só servem para proteger o seu rosto não da chuva, mas dos veículos e transeuntes que andam no sentido oposto. você sabe. os dias de ócio podem provocar cenas atípicas (positivas ou não). e entre incertezas, passos em falso, luzes desfocadas e muita água, finalmente o encontrou.

idealizações à parte, ficam pílulas do dia seguinte para evitar leptospirose e uma nova busca.
dessa vez, ao choque térmico.

17.3.08

o que é um beijo se eu posso ter o teu olhar?

eu queria te dizer uma coisa. aliás, uma coisa não, várias coisas. eu sei que coisa é uma palavra muito banal pra tudo que eu quero dizer. mas não encontro mais nenhuma. é que são tantas coisas que não pode ter outro nome senão "coisas". é tudo aquilo que eu queria ter te dito quando pensei, quando senti, quando, sei lá, tinha vontade. na verdade eu só queria mesmo poder te dizer. sem precisar pensar duas vezes e ficar tentando encontrar alguma brecha que você tivesse me dado ao longo desses anos. mas você não deu. após tantos momentos intensos, tantas situações vividas, você sabe. foram gritos, foram silêncios, gargalhadas de chorar, abraços de deixar sem ar. e eu que nunca chorei na tua frente estou aqui, com os olhos marejados agora, bem agora. marejados só, você deve pensar. não, isso é bastante. e é o máximo que consigo há muito, muito tempo. em alguns momentos eu achei que tinha atingido o máximo com você. mas logo depois acontece alguma coisa, coisa que me impede de atingir esse máximo, de sentir. como é possível atingirmos esse ápice sem que eu possa te dizer? sim, eu sei, a gente consegue dizer várias coisas sem precisar abrir a boca pra falar, isso é bom, eu não nego, me orgulho, é lindo! mas às vezes palavras - tão falhas - precisam ser ditas, precisam ser jogadas, agarradas, guardadas. por mim, por você. eu também quero guardar as suas, desde que elas existam. é isso que precisa existir. essa troca sem medidas, impensada, aberta, livre que só pode ser concebida após anos de uma relação como a nossa. a gente tá pronto, a gente passou do ponto e só você não vê. agora há uma lacuna enorme que precisa ser preenchida, e seria, se dependesse de mim. não é possível que você não queira. me diz, me diz. você quer? não pensa muito não, por favor. porque durante todo esse tempo esse espaço vazio só faz crescer num circulo vicioso e eu já passei da crise de abstinência. já tentei e experimentei outras coisas, que coisa. mas só você que me causa aquele efeito instantâneo e duradouro. então, para de recorrer a qualquer um porque eles não passam disso. qualquer uns. deixa eu te dizer uma coisa, uma só: é preciso dizer. me diz, pode dizer. porque eu preciso te dizer um monte de coisa.

13.2.08

never quiet as it seems

essa noite sonhei com você de novo. dessa vez foi mais light (ou não).
o lugar apesar de desagradável, me era familiar e te ver sem ser visto, de certa forma, me agradava. só você tinha voz em meio a tantas outras bocas mudas, só você não tinha olhos para mim.
eu não sei porque estava ali, mas quis o tempo todo acreditar que não era por sua causa.
já de saída, a amiga de sempre, hoje, no papel de figurante, me chama pelo nome. alto.
sua reação foi imediata. vi você me ver, mas não quis encarar. não queria que depois de tanto tempo fossemos obrigados a nos cumprimentar ali, no meio daquela gente sem nome. te queria só, pra mim.
saí o mais depressa que pude: lentamente.
no caminho tão curto e interminável as pessoas me apontavam, me recriminavam. o feitiço contra o feiticeiro.
quis sumir, correr, fugir, desaparecer. tentava fazer das paredes, dos postes, das placas um apoio, um impulso.
inutilmente.
era como se eu estivesse debaixo d´água.

10.1.08

um tempo e uma pergunta proibida


foi embora, deu um tempo, desopilou. a princípio, sentiu uma ponta de coerção, mas aos poucos foi se adaptando a idéia e transformou-a em "só tem tu, vai tu mesmo". fugiu daqui, da rotina, de vocês. foi com um só pensamento e uma só vontade que fariam com que o dia inteiro valesse a pena. os dias valeram.

no primeiro dia observou minuciosamente como já é de costume. viu a linha do horizonte e em seguida olhou ao redor. à direita haviam crianças e não-mais-crianças jogando bola. iluminadas pelo sol, faziam poses que pareciam propositais. fotografou tudo, lógico. em sua mente. do outro lado haviam dois casais de adolescentes. cada um com seu par combinante. a loira simpática com o loiro, a morena com o moreno. conversavam em pé tentando liberar a descontração que a timidez insitia em prender.
o sol foi descendo cada vez mais, os meninos também foram jogar bola e as meninas ficaram por ali...
apesar de parecer, não estava só. sua velha companheira estava lá mais uma vez, concretizando aquela cena idealizada.

no segundo dia fez questão de repetir a cena e seguir a pequena rotina. viu os mesmos meninos jogando bola, as mesmas meninas conversando animadamente e brincando com a areia.
sentou-se, olhou para o horizonte, sentiu o vento e viu o sol descer mais uma vez. em ótima compainha, claro.
e no caminho da volta, depois de caminhar alguns metros, onde a areia já tinha virado barro, escutou os passos apressados. o barulho dos pés descalços naquele chão batido, cada vez mais próximo.

- ei

escutou claramente, mas não olhou. não conhecia ninguém ali e de qualquer forma, simpatia nunca foi seu forte.
ela não desiste e para bem à sua frente tornando, o que quer que fosse aquilo, inevitável.

- ei

os cabelos loiros eram volumosos, ondulados e conseguiam se ressaltar apesar de estarem presos, os olhos radiantes eram cor de céu à tardinha e o sorriso espontâneo, verdadeiro.

- oi, responde tentando esboçar um sorrisinho sem graça.
- posso te fazer uma pergunta?

já está fazendo. e se for pra fazer outra, não, não pode. eu sempre odeio a pergunta que vem depois dessa. se uma pergunta precisa de autorização para ser feita é porque não deve ser feita.

- pode, claro.
- o que tu tava ouvindo?

primeiramente fica chocado com tamanha ousadia, e inveja por ver alguém fazendo aquela pergunta que ele tanto imaginou fazer para tantos outros e nunca fez. se enrola um pouco na resposta, tenta escolher uma coisa só e termina sendo vago, como sempre. mesmo assim, pareceu o bastante.

- ah, tá bom! brigada!
- nada.

riu e correu do mesmo jeito que chegou.
deixando lembraças e solidão.