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27.10.12

Ainda sobre o rouxinol

A situação em si já era bizarra. Eu criava um polvo e morava numa casa que ficava perto da praia. Era uma casa, tipo, de pescador mesmo e havia um polvo meio vinho, meio roxo no aquário. Eis que, um belo dia, o polvo conseguiu sair do aquário, que ficava suspenso, e foi descendo pelas paredes como quem não quer nada. Eu fiquei ali olhando pro polvo, observando, vendo do que ele seria capaz de fazer. E não deu outra. Ele foi, aos poucos, se arrastando pra fora da casa. Eu podia muito bem ir lá, pegá-lo e colocá-lo novamente no aquário, mas eu não fiz isso. Fiquei olhando ele ter autonomia, e caminhar sozinho. 
Pois bem, o polvo saiu da casa e quando ele passou da porta, ele inflou e virou uma bóia gigante. Mas não era uma bóia em formato de polvo, era aquelas bóias em formato de poltrona. Uma bóia poltrona roxa, que saiu voando com a ventania em direção ao mar. Do lado da minha casa era descampado e ela voou bem rápido. Foi aí que eu corri, não pra impedir, mas pra ver ela cair na água, ir pro seu habitat natural. Quando tocou na água, a boia desapareceu. Acho que ela virou polvo de novo. Aí, eu fiquei ali, olhando pro mar, no meio daquela ventania e sentindo aquela angústia de estar sozinho no fim da tarde, naquele momento em que o sol já se pôs, mas ainda não virou noite.

12.1.12

29.9.09

Fica pra próxima

Ontem, devido ao motivo citado abaixo, larguei mais cedo, toquei a campainha e lá pelo quinto toque escutei um "já vai" sonolento.
Ao abrir a porta, ao invés de dar um "oi" ou, pelo menos, perguntar "porque chegasse tão cedo?", ela me diz:

- Ai, eu tava sonhando que tu tava grávido.



Veja bem que eu sou uma pessoa que pensa antes de falar porque, caso contrário, teria peguntado imediatamente "DE QUEM?"

11.9.08

Uma casa muito engraçada

Era uma cena bem típica de Lewis Carroll.
O menino corria, corria para salvar algo, alguém, para tentar impedir alguma desgraça qualquer, corria contra o tempo. No meio do caminho tinha uma casa, a casa era o caminho.
Era pequena também, como uma casa de boneca, de gente pequena. Na entrada tinha uma velha senhora, baixinha, de cabelos brancos, de rugas profundas, de humor sisudo.
Ele, o menino apressado, sequer olhou para a guardiã da casa e foi logo adentrando. O primeiro cômodo era um quarto. As paredes não tinham um bom acabamento, e eram amareladas. Da tinta talvez, do tempo, do mofo. A janelinha era curva na parte de cima, como são todas as janelas das casinhas de gente pequena. E essa era azul. Azul clarinho, assim, quase bebê.
Na verdade, o menino nem reparou muito nesses detalhes à primeira vista, afinal, estava apressado.
E assim, abaixado para não bater a cabeça no teto da casa, ele saiu daquele cômodo e entrou no outro. Um outro quarto.
As cores eram diferentes, tinha verde clarinho, assim, quase bebê e tinha um toque de vermelho também. Vermelho vivo. Vermelho sempre é vivo.
Ele tentou abrir a janela para ver se encontrava um jeito de sair logo dali. Ele só sabia que tinha que sair depressa.
Do outro lado da janela, era como se tivesse uma outra parede. Mas isso ele nunca pôde constatar.
E assim, foi saindo de um quarto e entrando em outro. Em outros, seguidos, parecidos, procurando uma saída que parecia não existir. E já desesperado pensou em fazer o caminho de volta. Sua única solução seria, então, sair por onde entrou e procurar um outro caminho, que é claro, tinha que existir.
Com certo esforço e com a ajuda significativa do desespero, ele refez o caminho, voltou em cada quarto e finalmente chegou ao primeiro. Ou ao que parecia ser o primeiro porque ali não havia mais porta alguma, só uma janela a mais, que ele bateu, bateu muito, com força e conseguiu abrir uma pequena brecha por onde via os cabelos brancos e parte da cara carrancuda da vellha.

- Ei, eu quero sair daqui, abra a porta! - disse o menino.
- Você está vendo alguma porta?
- Como eu faço para sair, então?
- Você tem que escolher um quarto, cada quarto vem com um presente.
- Ok, na verdade eu só queria sair da casa, mas então eu fico com este quarto que estou, o primeiro. E agora, o que eu ganho? - perguntou o menino impaciente.
- Este quarto vale a casa. Com o quintal.
- Certo, e agora, como faço pra sair?
- Aqui você não pode sair pela mesma porta que entrou, até porque ela não existe mais.
- Mas não existem outras portas nessa casa!
- Pois é, eu costumo avisar às pessoas que me perguntam antes de entrar.
- E como eu faço para tomar posse do quintal?
- Você não tomará posse alguma. A casa e o quintal seriam seus se.
- Por que?
- Porque existem regras e essa é a regra para quem não sabe brincar.
- Olha, eu só quero sair daqui, não quero brincar.
- Exatamente por isso.

6.8.08

É O QUE MENIN?

"O Kulturfest Itinerante tem início no sábado, 16 de agosto, com apresentação musical ao vivo do DJ de música eletrônica Justus Köhncke, intregrante do coletivo Whrilpool Production e atualmente em trabalho solo com faixas lançadas pelo selo Kompakt, um dos mais importantes do gênero na Europa. Justus já trabalhou ao lado de artistas como Hot Chip, Erasure, Ladytron, Human League e Stereo Total, inclusive fazendo remixes. No show, que acontece a partir das 21h, na Torre Malakoff (Recife Antigo), o músico alemão se apresenta ao lado de DJ Dolores, cantando e tocando teclado e guitarra."

essa notícia foi tipo uma avada kedavra pra mim.
foi eu lendo e morrendo instantâneamente. :~

3.3.08

SOHNOS

o lugar era novamente familiar, ainda da época da pseudo-infância, da época que eu tinha uma rotina. olha que feliz, eu tinha uma rotina. mais uma vez não sabia o que fazia ali, sozinho, sentado numa calçada, olhando pro trânsito parado de carros antigos. dentro de um deles havia um senhor. não sei bem quem era. talvez o tio da little miss sunshine piorado. o fato é que ele me olhava. muito. indiscretamente. tenho medo de gente assim. e com razão. num piscar de olhos ele já estava fora do carro, correndo atrás de mim com uma faca na mão e uma cara de psicopata. a faca não era tão assustadora. aquelas dos jogos de talheres, tramontina. mas a cara de psicopata compensava.
eu corri, lógico. aliás, mais uma vez tentei correr em vão. a sensação dessa vez não era de estar em baixo d'água. era como se eu fosse um fantoche controlado por alguém que se divertia bastante em me ver tentando correr sem conseguir.
entrei numa pequena farmácia. pequena mesmo. mal cabia uma pessoa e não havia remédio algum. mas era uma famárcia. no meio (que era canto) havia um isopor. vendia-se picolés de graviola com um toque de mel. custavam cinquenta centavos cada. mas eu não sei porque, achei que eram trinta. catei as moedas, mas não deu tempo de comprar porque o perseguidor tinha voltado à ativa.
saí tentando, novamente sem sucesso, correr. dessa vez foi um pouco menos lento. a locação agora era um mercadinho. entrei pedindo abrigo e de um quarto nos fundos liguei para casa. alguém tinha que me salvar, me tirar dali.
chama, chama e ninguém atende.

13.2.08

never quiet as it seems

essa noite sonhei com você de novo. dessa vez foi mais light (ou não).
o lugar apesar de desagradável, me era familiar e te ver sem ser visto, de certa forma, me agradava. só você tinha voz em meio a tantas outras bocas mudas, só você não tinha olhos para mim.
eu não sei porque estava ali, mas quis o tempo todo acreditar que não era por sua causa.
já de saída, a amiga de sempre, hoje, no papel de figurante, me chama pelo nome. alto.
sua reação foi imediata. vi você me ver, mas não quis encarar. não queria que depois de tanto tempo fossemos obrigados a nos cumprimentar ali, no meio daquela gente sem nome. te queria só, pra mim.
saí o mais depressa que pude: lentamente.
no caminho tão curto e interminável as pessoas me apontavam, me recriminavam. o feitiço contra o feiticeiro.
quis sumir, correr, fugir, desaparecer. tentava fazer das paredes, dos postes, das placas um apoio, um impulso.
inutilmente.
era como se eu estivesse debaixo d´água.

3.2.08

como estragar seu dia antes mesmo de acordar

sonhe com as últimas pessoas que você gostaria de sonhar, de um jeito que você nunca viu e jamais gostaria de ter visto.

vou ali morrer um poquinho e volto já.

21.12.07

um sonho e algo mais

ontem sonhei com ele.
como se não bastasse passar o dia sonhando acordado, agora ele também vai povoar meus sonhos, me deixando, mais ainda, na vontade?
eu bem sei que muita gente prefere os brancos, mas eu até que não. nunca me atraíram até então.
até então.
porque agora eu só idealizo ele todo branquinho. a minha cara, feito pra mim, me chamando pelo nome. e no sonho o danado era negro. mas eu o aceitava daquele jeito mesmo, afinal, era só meu. podem falar que a gente não combina, que somos incompatíveis, que ele é difícil de se adaptar, que vou usa-lo, cansar e jogar fora. mas é o que eu quero pra mim, é o que eu mais tenho desejado ultimamente e eu sei que serei uma pessoa mais feliz, mais completa ao seu lado.
no sonho, era preto com as laterais de um laranja fluorescente.
benditos/malditos óculos.

é, não fui atrás deles ainda e meu consumismo me consome loucamente.

eu poderia escrever aqui sobre amigos, reencontros e sentimentos com o tempo
ou poderia ainda desabafar sobre o fato de eu parecer uma pessoa perigosa, rude e antipática, mas que não revida quando recebe ofensas e agressões sem causa. o que tem acontecido com frequencia ultimamente.

um dia, quem sabe.

por enquanto me questiono: serei eu um infamão (aumentativo de infame) ou terei eu muita, mas muita classe?